O decepcionante lançamento do iPhone X em um keynote ruim como nunca antes visto

Confesso, antes de mais nada, que tinha baixas expectativas em relação ao Keynote de hoje realizado pela Apple. Não havia mais absolutamente nenhum segredo com relação aos lançamentos. Tudo foi revelado antes da hora e a impressão que tive foi de estar assistindo ao season finale de uma temporada mediana de Game of Thrones depois de tomar todo tipo de spoiler.

O keynote como um todo foi estranho. Sem energia, sem empolgação. Tim Cook por vezes parecia até mesmo estar sob efeito de alguma substância. Remédios, por exemplo. Talvez pela grande emoção do evento em si, tenha tomado algum tranquilizante. Sua voz estava embargada, por vezes enrolada, ele perdeu o fio da meada no discurso algumas vezes. Muito, muito estranho.

Os próprios palestrantes habituais da Apple cometeram alguns erros, principalmente Craig Federighi, que entrou numa saia justa quando o FaceID, a grande “revolução” do iPhone X, falhou no começo da apresentação. Impossível não lembrar do Windows 95 dando tela azul na demonstração, mais de 20 anos atrás.

O Keynote foi focado em 4 coisas principais: iWatch 3, Apple TV 4K, iPhone 8/8Plus e iPhone X. Em se tratando de Apple, um evento onde o lançamento mais interessante é um relógio com 4G, fica claro que as coisas não foram tão bem.

Não falarei sobre o iWatch, que já tinha se tornado mais útil na segunda geração incluindo GPS e possibilidade de usar na água. Adicionar LTE e torná-lo quase um device 100% independente foi uma ótima notícia.

A Apple TV também não impressiona há anos, levando em consideração que é apenas aquilo, uma TV Box. Uma integração do iTunes diretamente nas smart tvs ou mesmo uma TV própria da Apple seria algo que me deixaria muito mais interessado. Adicionar 4K é o mínimo que a empresa deveria fazer tendo vergonha na cara.

Sobre os iPhones 8/8Plus, confesso que fiquei bem satisfeito com os refinamentos no design. Ele ficou muito mais clean e harmonioso, mesmo com mudanças pequenas. Foi uma modificação muito bem-vinda, além da adição de vidro na parte traseira para permitir o carregamento por indução, outra “novidade” de 10 anos atrás. Como destaque vale ressaltar o fato da Apple não ter usado um padrão próprio para esse carregamento, o que pode acabar ajudando a popularizar o formato.

O grande lançamento da noite, o iPhone X, 10 anos depois do primeiro modelo que, este sim, revolucionou a forma como utilizamos telefones e gadgets em geral, foi de certa forma decepcionante.

O destaque foi dado ao FaceID, uma estratégia arriscada, mas que foi adotada por conta da nova tela OLED sem bordas. Abandonou-se o TouchID por completo (ainda chuto que esse iPhone foi lançado as pressas e talvez o “XS” contenha o TouchID na tela, como alguns já sugeriram). Não bastasse o dispositivo falhar na apresentação, por vezes o reconhecimento pareceu demorado, acredito, por conta da forma como foi implementado. O sistema gera uma imagem em 3D do rosto e permite o reconhecimento no escuro, mesmo que a pessoa mude de cabelo, deixe crescer a barba, use óculos, etc.

A bateria continuará sendo o fiasco de sempre. Uma melhoria considerável foi feita no processador, com núcleos de desempenho e de baixo consumo trabalhando juntos. Talvez por isso, a eficiência energética que já é grande tenha melhorado mesmo com uma bateria pequena. É importante lembrar que a Apple oferece uma duração de bateria razoável com uma capacidade que é praticamente a metade do que a concorrência oferece. Imagine um carro popular que faz 50km/l porém possui um tanque de apenas 2 litros de capacidade.

Também foi adicionado carregamento por indução, além do mesmo sistema de câmeras (até onde pude entender) do iPhone 8 Plus. Para fazer valer a pena pagar 200 dólares a mais pelo X, a Apple adicionou uma tela OLED de 5.8″ num frame sem bordas, como tem virado tendência de mercado. E eu tenho alguns problemas com essa tela.

Para adicionar o reconhecimento facial em virtude da falta do Touch ID, vários sensores foram alojados na parte superior do display, ao lado da câmera frontal. Isso obrigou os engenheiros a criarem um “corte” trapezoidal na tela. Nas bordas superiores, os ícones de LTE, Wifi, bateria, etc. Porém, assistir vídeos nesta tela cria uma sensação estranha de que tem algo na sua frente, impedindo e ver a imagem completa:

Via @izzynobre

Talvez isso possa ser resolvido reduzindo o tamanho do vídeo e deixando duas bordas pretas nas laterais. O que faz com que se perca todo o sentido de ver vídeos numa tela borderless. A Samsung, por exemplo, tem um display infinito mais bem resolvido, pois a borda superior é fina mas regular. Apesar do aspect ratio bizarro, o S8 tem uma função oposta: se os vídeos não preenchem a tela toda, a função de esticar amplia a imagem e faz com que o vídeo ocupe toda a tela do dispositivo.

No fim das contas, nenhuma novidade absurda foi revelada e o ponto alto foi mesmo o preço do iPhone X: 999 dólares na versão de 64GB. É um montão de dinheiro que, sabemos, os entusiastas vão pagar e possivelmente veremos um novo recorde de vendas.

Levando em conta toda a aura em torno dos 10 anos do momento em que o mundo foi impactado para sempre com o lançamento do primeiro iPhone, do novo Steve Jobs Theater e de tudo o que a Apple é capaz de fazer, até mesmo na condução dos eventos, assistir erros, falhas em dispositivos e um Tim Cook de alguma forma fragilizado foi pra lá de frustrante.

Se o iPhone X é o “futuro dos smartphones” como Tim Cook disse, eu sinceramente espero que esse futuro tenha algumas mudanças em breve.

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