Especialistas de ocasião e vergonha alheia

Uma das grandes “vantagens” da Internet é poder mentir. A distância e a segurança que o conforto de casa dá para as pessoas estimula certos comportamentos que dão urticária nas pessoas com um mínimo de bom senso. A busca por integração, aceitação ou mesmo por atenção faz com que as pessoas coloquem o critério e a noção na Friendzone. É por isso que há tanta gente rica, bonita e gente fina na Internet, além de uma categoria que não é nem um pouco recente e já existia antes mesmo da digitalização do mundo: os especialistas de ocasião.

Esse grupelho é irmão de outra patota igualmente ridícula: os doentes de ocasião, mas sobre esses falarei outra hora. Os especialistas de ocasião são aquele grupo de gente que baseado num conhecimento mínimo sobre determinada coisa, declaram-se doutos no assunto. Eles tem o mesmo conhecimento que qualquer pessoa que teve mínimo contato com o assunto em questão teve, mas pelos motivos citados no parágrafo anterior sentem uma necessidade flamejante corroendo seu senso de ridículo de divulgar e alegar que são fluentes na tal área que estão falando.

Um exemplo: cinema. Hoje em dia qualquer um se julga cinéfilo. Cinéfilo é aquele que tem interesse em estudar sobre cinema. Que busca conhecer mais a fundo tudo o que envolve a criação de filmes. Mas como pendurar uma melancia no pescoço está fora de moda, cinéfilo agora é qualquer um que já viu um filme na vida. Gosta de ir pro Cinema? Cinéfilo. Baixa filme via torrent? Cinéfilo. Comprou um DVD pra dar de presente? Cinéfilo. Essa turminha assiste a um filme do Almodovar e espalha aos quatro ventos o seu gosto por cinema alternativo, disserta sobre as cores das roupas da Penelope Cruz e canta o refrão de Volver em portunhol de quinta categoria como se isso os gabaritasse a participar da votação do Oscar. Isso dá um tremor de uns 8,5 pontos na EPCVA – Escala Poser de Constrangimento e Vergonha Alheia.

Esse tipo de gente vai ao cinema se achando a tartaruga que matou o Mario só porque leu o livro antes e sabe que personagem A não tem aquela fala ou que fulano B nem deveria ter aparecido. Eles não vão pra apreciar o filme, não querem saber da história contada. Eles querem demonstrar uma sabedoria inexistente usando palavreado de botequim, falam com um ar blasé de quem foi ao cinema por mera obrigação intelectual e acham que certos filmes “não são pra qualquer um assistir”. Pra essa gente até a pipoca tem que ter milho de uma safra específica com sal vindo direto do mar morto.

Quer desmascarar um cinéfilo? Pergunte porque ele chama o cinema de 7a arte e quais são as outras 6. Mas não vale ir no Google. Garanto que 9 de 10 não saberão responder. Fica aí o recado: continue pagando seus 30 reais pra ir ao cinema, continue baixando filmes iranianos nos torrents, mas não saia espalhando ter um conhecimento que não possui. Ouvi dizer que excesso de vergonha alheia mata.

Veja também

<>

Comentários

Topo