Acredite: já havia vida antes do Twitter.

Desde que foi lançado em 2006, o Twitter mudou drasticamente o comportamento das pessoas em redes sociais e até mesmo fora delas. O Twitter passou a fazer parte da vida das pessoas. Quantos de vocês que estão lendo isso aqui não primeiro tuítam e depois vão fazer suas obrigações ao acordar? Pois é. O problema é que assim como estamos limitados a 140 caracteres para demonstrar todo nosso bom humor, inteligência, sinceridade e elegância no microblog, tal condição parece condicionar nosso cérebro a também pensar em 140 caracteres.

O mundo evolui constantemente, o planeta vive em eterna mudança. A civilização humana é a cada fração de segundo diferente. Mas quando estamos dentro do Twitter, nos tornamos extremamente limitados. Ficamos parecendo aqueles cavalos usando tapa (uma espécie de tapa-olho que cobre apenas o campo visual lateral). Ele só consegue olhar pra frente e não enxerga o mundo ao seu redor, ficando condicionado a seguir em frente levando chicotadas e carregando peso.

O que eu percebo é que após o Twitter, principalmente quando estamos logados trocando mensagens, nosso pensamento fica preso por um cabresto. O universo fica restrito à timeline. Tentamos cada vez mais indexar pensamentos e ideias complexos em míseros 140 caracteres. Ficamos especialistas em síntese. Não que resumir seja ruim, mas ficar limitado a isso é prejudicial. Se nossas mentes são como para-quedas e só funcionam quando estão abertas, o Twitter é como uma espécie de Baú velho, fechado com um cadeado enferrujado prendendo nossa chance de pensar adiante.

Esse fenômeno acontece em tudo o que se comenta na rede. Hoje, durante o jogo entre Barcelona x Chelsea vi comentários do tipo “Desde quando pessoas torcem pro Barcelona?”. Tais comentários insinuam que torcer para o time Catalão é “modinha”, que quem faz isso é “poser” e que “brasileiro não pode torcer pra time estrangeiro”. Isso é o tapa falando mais alto. Imaginar, sonhar, pensar longe, acreditar que o mundo é maior do que o que está diante dos nossos olhos é o que faz um menino pobre da África chutar uma bola vestindo uma camisa da seleção brasileira.

O time do Barcelona tem mais de 100 anos. Alguns dos maiores craques brasileiros jogaram por lá. Eu por exemplo acompanho o time desde quando Romário chegou por aquelas bandas. Quando eu tinha 17 anos, foi a vez de Ronaldo Fenômeno assombrar o mundo por lá, seguido de Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho. Quem torce pelo Barcelona não é poser, ou está seguindo modinha. É apenas apaixonado por futebol, por futebol BEM JOGADO. Gosta de ver jogos bonitos, com jogadores brasileiros. O mesmo vale pra UFC, NBA, NHL, MLB, NFL e SuperBowl, até mesmo Curling. Na grande maioria dos casos, o comentário que cita modinha ou poser é justamente do fulano que só começou a prestar atenção nessas coisas depois do Twitter. Sempre se falou dessas coisas, mesmo antes do Twitter. A diferença é que quem gosta e quem não gosta agora estão reunidos no mesmo local.

Acreditem ou não, o mundo existia e funcionava muito bem antes do Twitter. O que está acontecendo agora é que estamos voltando a Idade Média ou coisa parecida. Acreditamos de novo que no fim do oceano há uma cachoeira e se você cair lá morre. E pior que isso, nossa memória anda ficando curta. A cada ano, os mesmos assuntos são exaustivamente debatidos, discutidos e repetidos. É sazonal. Chegando na época de determinado evento esportivo ou feriado, as pessoas que são avessas a determinadas coisas comentam as mesmas bobagens de que isso ou aquilo é só uma moda passageira. Essas pessoas não percebem que estão há 4 ou 5 anos comentando isso. Quanto tempo leva para que algo deixe de ser modinha? Há uma convenção para isso?

O mais chato é que essas mesmas pessoas arrotam seu patriotismo de ocasião, como na copa do mundo, defendendo “o que é nosso”. Se partirmos do princípio de que fomos colonizados, nada daqui é totalmente “nosso”. Deveríamos estar andando de tanga ou exibindo nossas vergonhas pelo meio do mato, falando tupi-guarani e comendo tapioca. O futebol, tão idolatrado e vendido como coisa nossa, algo que está no “dna do brasileiro” foi criado na Inglaterra. Agora somos o país do Vôlei e adivinha! Não foi inventado no Brasil. O iPhone que essa gente usa pra reclamar das modinhas, acreditem se quiser, não é produto nacional. O Twitter é um serviço estrangeiro, que brasileiros usam para reclamar da modinha de quem consome serviços, entretenimento e produtos estrangeiros. E reclamam de tudo isso depois de baixar mais um episódio de seu seriado favorito produzido nos EUA ou na Inglaterra.

Reflitam, o mundo vai bem além do que se lê em 140 caracteres. Essas “modinhas” que tanto vemos no Twitter são comportamentos muitas vezes de décadas. Apenas você não tinha Twitter antes pra concentrar suas reclamações e exibi-las para milhares de pessoas lerem. O Twitter veio e deu voz aos que sempre perdem a oportunidade de ficar calados.

Pense nisso e se concordar, compartilhe esse texto. Mas corra, saiu episódio novo da sua série favorita.

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