Virtualização nas escolas = #FAIL

Essa notícia, complementada por essa outra aqui divulgadas no Meio Bit, falam de um projeto do Governo que irá implementar quase 400 mil estações de trabalho nas escolas através de virtualização e usando clients ThinNet para isso. Com esse modelo, a economia em licenças de software e em hardware/energia/implantação é astronômica.

Porém, por já ter participado de projetos de grande porte na área de infraestrutura, questiono a eficiência do projeto antes mesmo dele acontecer. Em primeiro lugar, o volume espantoso de clients instalados ao final do projeto já assusta logo de cara. Em segundo lugar, temos o problema da logística para a distribuição de todo esse material (há lugares onde existem escolas em que só é possível chegar de barco e em determinadas épocas só de avião, por conta das chuvas. Outro ponto importante é a implantação. Serão necessários centenas ou talvez milhares de técnicos para executar a implantação com a eficiência desejada. E técnicos eficientes em determinados lugares simplesmente não existem.

O problema mais grave de todos é o da infraestrutura nas escolas. A precariedade é tamanha que não será surpresa alguma se a maioria delas não conseguir receber os equipamentos por não atender os requisitos mínimos para a instalação. A maior parte das escolas não possui sequer uma tomada tripolar para ligar um mero estabilizador. E mesmo as que possuem, trabalham com fiação tão precária que a probabilidade de queimar o equipamento poucas horas após a instalação é de quase 100%.

O Governo precisa entender, que um projeto dessa magnetide precisa primeiro de enorme planejamento, que tenho sérias dúvidas se será mesmo feito. O investimento inicial deve ser na estrutura predial das escolas, com condições mínimas de higiene, eletricidade, etc. Muitas escolas que irão receber recursos enviados por esse projeto sequer tem quadro negro ou mesmo carteira para os alunos se sentarem.

De que adianta chegar um monte de computadores se nem ao menos mesa para organizá-los as escolas tem? Os pontos chave para o sucesso desse projeto são:

1) Infraestrutura: o Governo deve antes de tudo fazer um levantamento de todas as escolas que irão receber equipamentos desse projeto, analisando as condições do prédio, eletricidade (aterramento, tomadas, qualidade da energia que chega) e telefonia (sim, há milhares de escolas onde não há eletricidade e muito menos acesso a telefones). Fazendo esse levantamento, verbas devem ser disponibilizadas para primeiro CORRIGIR os déficits estruturais que serão enormes para poder realizar-se uma implantação como essa;

2) Logística: todo o planejamento de recebimento, configuração, envio e instalação dos equipamentos deve ser muito bem realizado. Em projetos como esse, principalmente em que são pedidos lotes enormes de equipamentos, o prazo de entrga geralmente é dilatado e o Governo irá depender de muitos fornecedores, e o grande segredo é “casar” a entrega dos equipamentos com todos eles. Cada fornecedor tem o seu próprio prazo de entrega e conciliar tudo isso será uma tarefa árdua.

3) Implantação: em cidades muito afastadas, encontrar um técnico para realizar a implantação vai ser tarefa para McGyver. Se não houver concurso público para contratação de técnicos de implantação, o risco de desvio de verbas, corrupção, superfaturamento e tudo o mais é altíssimo. Se houver uma base de técnicos em determinados locais, que viajarão para realizar as atividades, o tempo do projeto será muito mais dilatado e o custo absurdamente maior (transporte, hospedagem, alimentação). Os técnicos deverão ser muito bem treinados para executar a instalação dos equipamentos com velocidade e qualidade (normalmente só se consegue ou um ou outro).

4)  Suporte: alguém imagina que irão existir dezenas de dúvidas na utilização dos equipamentos mesmo por parte dos gestores/professores, piorou dos alunos? Quem vai dar treinamento a essas pessoas? Ou o Governo acha que essa população semi-analfabeta irá saber manipular equipamentos e Linux? Por mais educacional que seja a versão do Linux, o bicho vai pegar na hora de usar. É preciso um forte treinamento nas escolas, bem como um Service Desk GIGANTESCO para receber milhares de ligações diárias quando o parque estiver todo implementado. E o acesso remoto? Receitas de bolo não irão servir para orientar uma população inapta digitalmente. É fundamental acesso remoto para dar suporte quando necessário, o que nos faz cair na questão da infraestrutura. Vocês sabiam que centenas de escolas que irão receber os equipamentos não dispoem sequer de uma linha telefônica? Já imaginaram o tamanho da bronca? E o anti-vírus? E o firewall?

5) Manutenção: os mesmos técnicos que irão fazer a implantação irão fazer também a manutenção? Onde ficará o depósito de spares? É normal um percentual de equipamentos já vindo com defeito de fábrica, e outros quebrando logo após a instalação. Se levarmos em conta que das 356.800 estações vituais, tivermos um equipamento para cada quatro estações virtuais, teremos um parque de quase 100.000 equipamentos instalados. Considerando uma margem de meio por cento (0,5%) de equipamentos com defeito, teremos 500 estações quebradas já vindas de fábrica. Dadas as condições de infraestrutura citadas antes, podemos esperar em seguida mais 15 ou 20% de equipamentos com defeito. E um equipamento com defeito significa 4 usuários a menos. Ou seja, serão quase 100 mil pessoas com seus desejos frustrados logo no início do projeto.

Portanto, chegou a hora do Governo parar de brincar e fazer algo realmente sério pelas nossas escolas e estudantes. A iniciativa é louvável, mas se as variáveis acima não forem levadas SERIAMENTE em consideração, o fracasso será total, teremos mais centenas de milhões de reais jogados fora e mais alguns anos de atraso pela frente.

Vamos aguardar e observar.

Como diria Cid Moreira… Estamos de oooooooooooolho!

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