A real função do smartphone foi subvertida. Precisamos acabar com isso.

An immigrant from El Salvador that entered the country illegally wears an ankle monitor at a shelter, Monday, July 27, 2015, in San Antonio. Lawyers representing immigrant mothers held in a South Texas detention center say the women have been denied counsel and coerced into accepting ankle-monitoring bracelets as a condition of release, even after judges made clear that paying their bonds would suffice. (AP Photo/Eric Gay)

O smartphone é a tornozeleira eletrônica da pessoa comum. Assim como no caso de detentos, o celular virou um artefato que serve para que pessoas responsáveis por vigiar sua vida saibam todos os seus passos. Onde você esteve, para onde vai e até mesmo o que comeu. Sossego e privacidade? Coisas do passado. Agora você pode ser encontrado em qualquer parte do mundo, a qualquer hora. E ai de você se deixar o aparelho desligado, é bronca na certa. Do namorado, do chefe, dos amigos e da família. Alguns até mesmo chegam ao absurdo de perguntar pra que você tem um telefone se o deixa desligado. Que absurdo, não é mesmo? Fazer o que quiser com algo que é seu.

Smartphones são aparelhos que existem para a conveniência DO DONO. Eu uso meu smartphone quando quero entrar em contato com alguém. Quando quero procurar um endereço, responder um email ou apenas navegar na Internet. É por isso que eu tenho um smartphone, para que ele facilite a minha vida, não para que a transforme num inferno.

Os celulares modernos deixaram as pessoas ainda mais mimadas e carentes de atenção. Na época do SMS, não havia os checkmarks azuis que indicavam que a pessoa leu a mensagem. Você enviava e tinha que esperar uma resposta. Podia até enviar vários SMSs e ficar ligando pra pessoa, mas não podia acusa-la de ter lido e não respondido. Toda uma geração de pessoas imediatistas e incapazes de lidar com frustrações foi criada, ou pelo menos alimentada, por conta do smartphone e da facilidade de comunicação.

É por isso que afirmo que o uso do smartphone foi subvertido. As pessoas acham que você tem um aparelho desses para a comodidade DELAS. Pra quando ELAS quiserem te ligar 30x mesmo que você não queira atender, pra elas te enviarem emails as 2 da manhã cobrando respostas do trabalho, pra te exigirem uma resposta a uma mensagem que você leu, mas não pôde ou simplesmente não quis responder. Chega a ser uma ofensa nos tempos atuais ler e não responder uma mensagem, mesmo que esta seja indesejada ou inconveniente. Não satisfeitas, as pessoas fazem um encadeamento de chiliques. Uma cascata de mendicância afetiva. Envia mensagem, fala no facebook pra avisar que enviou a mensagem, comenta no instagram dizendo “vê o facebook quando der” e depois manda uma DM no twitter perguntando porque você postou uma foto de comida mas não respondeu o direct.

Tudo isso junto leva a produção quase industrial de pessoas ansiosas, com ataques de pânico e emocionalmente frágeis. Se elas não conseguem lidar com uma simples falta de resposta em um app de mensagens, como poderiam ter equilíbrio para lidar com coisas mais sérias?

Vamos esclarecer de uma vez por todas: meu smartphone, minhas regras. Se eu quiser desligar, vou desligar. Se eu quiser ler e não te responder, lide com isso. E nem adianta dizer aqui que não é pessoal, as vezes é pessoal, sim. Haverá vezes em que eu não vou poder atender, outras eu simplesmente vou ignorar justamente por ser você ligando. E minha sugestão é que você faça o mesmo com o seu. Liberte-se dessa prisão que é viver ansioso, contando likes, dando satisfação virtual a pessoas que você sequer conhece. Há muito mais coisa no mundo pra se preocupar do que com a carga da bateria do smartphone. Vai sair de casa e só tem 10%? Dane-se. O mundo não vai parar por isso.

Desplugue-se de vez em quando, e mais importante: permita que os outros se desconectem, por uma questão de respeito.

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