Imagine que você tem uma vaca e você resolve abrir um negócio de distribuição de leite. Você faz uma proposta aos seus possíveis clientes: eles pagarão um valor fixo mensal, por um número máximo X de litros de leite. Você é obrigado a fornecer esse número X de litros todo mês. O cliente pode ou não retirar o leite todo mês, mas este não é cumulativo. Tudo funciona direitinho, você verifica quantos litros de leite a sua vaca pode atender e começa a vender e distribuir.
Sua vaca produz 100 litros de leite por mês. Você entende que pode fornecer com qualidade 10 litros de leite por mês. Ou seja, sua CAPACIDADE de distribuição de leite atenderá COM SEGURANÇA uns 8 clientes. Você deve considerar que a vaca pode estar de mau humor e produzir menos leite em determinados meses. Mas vamos lá, você resolve arriscar e atender os 10 clientes, fornecendo 10 litros por mês, correndo o risco de ter que comprar leite mais caro de terceiros caso sua vaca não produza como desejado.
O negócio prospera e você compra outra vaca, passando assim a atender 10 clientes. Mas após alguns meses você percebe que Dona Zefinha paga por 10 litros de leite, mas só consome 2. E você acaba perdendo esse leite, pois ele estraga e acaba sendo desperdiçado. Sabendo disso, você abre uma vaga para um novo cliente, que irá consumir o leite que sobra todo mês da Dona Zefinha. Correndo o risco dela querer os 10 litros em determinado mês e você ter que comprar leite mais caro de terceiros. Mas o risco é válido já que o lucro é alto.
E assim você segue, comprando mais vacas e aumentando os clientes a medida em que o leite é produzido e você percebe que a maioria dos clientes não tira o leite todo que tem direito. Suas vaquinhas viveriam muito mais se você desse um descanso a elas e trabalhassem com uma certa folga, só produzindo digamos, 80 dos 100 litros que elas conseguem. Mas sua ganância não deixa e as vaquinhas trabalham sempre no limite e vivem estressadas, o que faz com que vez ou outra elas não produzam o leite como você espera.
O negócio começa a gerar muito dinheiro e o olho grande de alguns funcionários começa a aparecer. E o leite começa a ser roubado. Funcionários jogam água no leite, que apesar de ficar mais aguado continua sendo vendido como era originalmente. Então uma vaquinha que produzia 100 litros de leite, por mágica começa a produzir 150 litros. E os funcionários desviam o excedente. Sabendo disso, clientes espertalhões fazem acordos com os funcionários desonestos e resolvem pagar um por fora pra ter mais leite. Eles pagam à empresa o valor acordado pelos 10 litros, mas pagam um troco qualquer ao funcionário ladrão por outros 10 litros. Na prática, o cliente pensa que está levando vantagem, mas tudo o que ele tem é 20 litros de leite comprometido e de baixa qualidade. E assim, Dona Zefinha, que não tem nada a ver com a história e sempre pagou honestamente pelo seu leite, começa a reclamar publicamente da baixa qualidade do leite e exige que vacas melhores sejam compradas. Você promete comprar as melhores vacas holandesas, mas compra vaquinhas mestiças daqui do Brasil mesmo, e anuncia como se elas fossem holandesas. Você também diz que comprou 20 vaquinhas quando na verdade só comprou 5. E assim a qualidade do leite que é vendido na sua empresa fica cada vez pior, as pessoas passam a reclamar cada vez mais, mas continuam comprando pois todo mundo precisa de leite.
A historinha acima é verdadeira e a empresa em questão é qualquer empresa que fornece banda larga no Brasil. Nelas há o dono da empresa ganancioso, há o funcionário desonesto, há o cliente espertalhão e há você, que paga tudo certinho mas recebe um serviço porco. Todo mundo conhece alguém que conhece um cara que por valor X dobra a velocidade da sua banda larga. Ou alguém que paga um por fora pra ter os canais pornô “de graça” na TV à cabo. Pode não parecer, mas isso é roubo.
As empresas de telefonia e banda larga no Brasil são sim muito deficitárias na qualidade do serviço, mas a culpa não é só delas. Enquanto o brasileiro tiver como maior virtude a “esperteza”, estaremos fadados a contar com serviços cada dia piores e cada dia mais caros.
Se você não quiser ser honesto por você mesmo, seja pelas vaquinhas, elas não merecem isso.











































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20 comentários
Infelizmente, como você disse, as pessoas continuam comprando leite, porque todo mundo precisa de leite e isso gera um ciclo vicioso =/
Até um fiscal sanitário honesto que não aceite suborno com um chefe igualmente honesto e comprometido vá até essa fazenda e de multas altas atraz de multas altas até que o serviço seja realmente adequado
O que convenhamos, é bem dificil de acontecer, ainda mais aqui no brasil =/
Marcel,
Acho que o impacto na qualidade do serviço decorrente das pessoas desonestas é baixo.
O grande problema é mesmo os heavy-users. As telecoms vendem milhares de vezes mais banda do que efetivamente podem fornecer, então um punhado de pessoas que realmente usufluem do serviço que contrataram sobrecarregam o sistema para todo o resto.
Excelente comparação! E não poderia ser mais verdadeira!
Eu sempre disse e vou continuar dizendo a todos: O que estraga o Brasil é o jeitinho brasileiro. Se não fosse isso, político não se livrava de CPI ou qualquer tipo de investigação, malandro não andava na contra mão pra chegar mais fácil em casa, não pagava propina pra fugir de multa. Mas falamos isso com MP3 pirata no computador, baixando filme por torrent. É uma mudança ENORME em conceitos e atitudes. Cada um de nós tem que fazer sua parte.
Me desculpe mas discordo.
Não me entenda mal, sou contra a pirataria, roubo ou qualquer que seja o nome do CRIME que é (e é mesmo) o famoso 'gato'.
Mas isso faz parte de todas as empresas em todo lugar do mundo. Acho muita ingenuidade achar que só no Brasil funcionários e clientes são desonestos.
Está errado, não me entenda mal. Mas vou fazer outra analogia, já que é desta forma que teu post segue:
Quando colocamos R$20,00 de gasolina em nosso carro (vamos considerar que ela é só gasolina mesmo) esses R$20,00 são utilizados totalmente? Não. Uma parte da energia que deveria fazer o carro andar é dissipada em calor, atrito, fumaça. Mas o carro segue andando, não segue?
Abraços!
Sim Raphael, então a culpa não é dos heavy-users. É do dono da vaca que vende mais leite do que pode entregar.
Caipira: em momento algum eu disse que isso é só no Brasil. Eu só posso falar do Brasil, pois como você sabe, é aqui que eu moro. Nunca morei fora pra criticar país A, B, ou C. Isso é complexo de inferioridade que atinge muitos brasileiros. São NOSSOS problemas, não podemos falar dos problemas dos outros ou esperar que eles se resolvam por mágica. E sua analogia com a gasolina é inválida, pois a gasolina é tangível e EVAPORA. Banda larga é uma massa de dados, que também se dissipa pela indução e outros fatores que envolvem o meio físico. Por isso na minha analogia falei que o ideal seria vender 80 litros produzindo 100. Abraços.
Marcel,
O que quis dizer com a analogia é que as empresas devem estar preparadas para este tipo de desvio de conduta e oferecer o serviço bom apesar disso.
Quanto ao que disse do Brasil, tem razão…
Caipira: partindo desse princípio, usando a sua analogia o posto de gasolina teria que "se preparar" pro desvio ou pra evaporação do combustível e ao vender os 20 litros, lhe entregaria, sei lá, 22. E não é assim que funciona. Apesar da GVT por exemplo, me entregar 12 mbits quando eu só pago por 10 (para compensar as eventuais perdas).
Gostei da analogia e da análise, e concordo.
Não defendo a utopia de que "Se todos fizerem o certo, isto irá acabar", por que isto não vai acontecer. Porém, defendo aquele velho ditado que diz "Cada um cuide do seu quintal; seu vizinho, ao vê-lo arrumado, irá cuidar do dele e, quem sabe um dia, todos cuidem".
Realmente o maior problema do brasileiro é o jeitinho dele, mas sinto que cada um pode fazer a sua parte para agir certo.
Se um produto PODE ser vendido mais barato, e não o é, isso gera a reação, principalmente quando ele se torna necessidade. Fácil acusar o cidadão do final da corrente por roubar a TV a cabo que custaria R$ 130,00 pra ele, mas que a mesma operadora vende por R$ 30,00 quando convém.
Preços justos moralizam o mercado muito mais que demagogia.
Realmente, preço abusivo é um excelente argumento pra justificar roubo. Brasileiros SEMPRE fazem isso, encontram 1000 alternativas pra fazer a ilegalidade parecer moralmente aceitável.
Demagogia é sempre demagogia, mesmo com uso de palavras pesadas.
É verdade, exceto quando a demagogia é fato.
Aliás, há vários casos para ilustrar que o mercado está criando esta cultura de marginalizar o consumidor para depois imputar-lhe a culpa dos fracassos.
O filme Superman – O Retorno foi lançado, em 2007, na versão "pura", por R$ 49,90. 2 anos depois, O MESMO DVD custa R$ 12,90. O que justifica esse decréscimo tão grande para quem comprou o filme tão inflacionado?
Mantendo a metáfora da vaquinha, e o caso de clientes que compram o mesmo leite por um décimo do valor, "promocionalmente"?
Basta reclamar com operadoras que os preços baixam vertiginosamente… O que comprova que tem muita gordura sendo repassada a quem paga honestamente e não quer ficar pechinchando.
Quem vai ter coragem de penalizar o sujeito que golpear a seguradora que passou anos cobrando dele os outros que a golpearam antes?
Muita gente defende a pirataria inclusive como resistência ideológica aos abusos. São mais que simples ladrões, aproveitadores ou "espertos".
Curioso é sentir-se trouxa por pagar corretamente a quem está redistribuindo o prejuízo pra você, mesmo sem você tê-lo causado.
O problema do seu argumento é que você considera esses diversos aspectos excludentes, quando eles são complementares. Abs.
Texto perfeito, inteligente e claro. Parabéns. Sou fã deste blog.
Parabéns! lindo texto… sem palavras! me fez refletir.
Excelente texto, a cada dia que passa esse blog ta se tornando uma leitura obrigatória e acredito eu, para todos.
Concordo com o artigo.
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