Bafo de bêbado tinha dono. E agora?

Com a Lei Seca, o Brasil passou a ter uma das legislações anti-bebedeira mais rigorosas do mundo. É dura inclusive para os padrões europeus, que tem baixa tolerância a motoristas dirigindo embriagados.

No centro da questão estão os bafômetros, aparelhos que supostamente são capazes de medir o teor de álcool no sangue do motorista com uma simples baforada, a mesma que sua namorada ou esposa detesta.

O que as pessoas assumem como normal e o governo legisla a respeito tem detalhes que passam despercebidos. Os bafômetros, assim como praticamente tudo hoje em dia são equipamentos eletrônicos que tem softwares embutidos para controlar as funções do aparelho. E as pessoas vão entregando o controle de suas vidas e do seu destino a softwares muitas vezes mal escritos ou de baixa qualidade.

No caso dos bafômetros, uma questão polêmica balançou a sociedade americana com relação a eficácia do sistema utilizado pelos pega-bêbado: uma revisão sistemática no software detectou falhas graves na construção do programa, ausência de procedimentos de testes no software e outros erros que colocam em dúvida a validade de milhares de testes de bafômetro EUA afora.

Especialistas independentes condenaram o software do bafômetro 7110 da dräger, que mostram “amplas evidências de design incompleto, verificação de design incompleta, e testes black box e white box também incompletos”. Basicamente, foram encontradas falhas em todos os processos de desenvolvimento no projeto do aparelho. Esse modelo especificamente contém mais de 10 falhas que tornam inválidos quaisquer testes realizados por esse equipamento com motoristas supostamente bêbados.

A questão aqui não é se devemos considerar um motorista bêbado com um ou dez copos de cerveja, o problema é o motorista ser penalizado por dois copos de cerveja se ele só tiver ingerido apenas um ou o contrário. Um motorista embriagado ser dispensado porque o software do bafômetro é ruim o suficiente para não detectar a quantidade de álcool na forma correta.

Do blog do Sílvio Meira:

a dräger pode acabar tendo que devolver US$7M que o estado de new jersey gastou em seus bafômetros, e o estado pode ter que compensar em muitos milhões a mais as pessoas que condenou a penas diversas, baseado em evidências produzidas [literalmente] pelo bafômetro. isso se o judiciário de lá levar em conta as análises de software que ele mesmo solicitou.

e não é o caso de um único fabricante ter problemas: em minnesota, a CMI está toda enrolada com seu modelo intoxilyzer 5000 en, cujo software não quer submeter a uma análise independente para certificar se a coisa funciona como deveria e, se não, em que condições dá pau.

Agora imaginem quantos bafômetros como esses temos sendo utilizados no Brasil? É óbvio e desnecessário dizer que se os bafômetros possuem erros de desenvolvimento e projeto no software devem ser removidos imediatamente das ruas para evitar erros de diagnóstico tanto para o bem quanto para o mal, e que os motoristas não devem tomar (no sentido figurado) uma notícia como essa como motivo para encher a lata.

Cabe ao nosso Governo promover uma ação semelhante de auditoria nos equipamentos utilizados pelas polícias em todo o país para garantir a integridade do cidadão, a idoneidade do processo e a fé publica dos órgãos fiscalizadores.

Fonte: Blog do Silvio Meira

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