Apego digital: nossos sentimentos representados por bits

Tudo bem que o Buda pregava que não podemos ter apego material nem pelo nosso corpo (pelo visto ele não pegava ninguém, quem não quer ter apego ao corpo da Ana Paula Arósio?) nem pelas nossas coisas. Mas quem não tiver chorado quando se desfez daquele carango caindo aos pedaços ou não ficou indignado(a) quando o iphone caiu no asfalto e ralou-se todo, que atire o seu gadget pra mim e seja feliz.

A diferença hoje em dia é que a tecnologia está tão entranhada nas nossas vidas, que o nosso apego sobe um nível de abstração e passa a ser detectado em forma de zeros e uns. É fácil de identificar isso, sem muito esforço você vai perceber que é mais uma vítima do apego digital.

MP3: foi lendo uma twittada da Vanessa Nunes, do ótimo Blog da Vanessa, que surgiu a idéia para esse post. Ela falava da dificuldade de se livrar de alguns livros, pois está de mudança, e teria que vender alguns, doar outros e levar apenas uns poucos com ela. A primeira coisa que eu associei a dificuldade que ela teve foi com relação as minhas MP3. Eu me sinto em relação a elas como uma formiga rainha se sente em relação as filhas. Não pode abraçar todas ao mesmo tempo, mas sabe o nome delas de cor. Sempre me vejo tendo que apagar ou tentando me livrar de algumas MP3 pra economizar espaço em disco, mas sinto praticamente a dor de uma mãe ao mandar um filho para a guerra quando penso em apagar alguma delas. Elas estão lá no HD, algumas há mais de uma década, mas mesmo que eu não as escute há anos não consigo ser frio e calculista e simplesmente apagá-las no dedo grande;

Área de Trabalho: aqui não me refiro ao computador em si, mas a área de trabalho. Eu tenho uma relação quase sexual com minha área de trabalho. Tudo é organizado de forma meticulosa, poucos ícones, cada um em sua posição específica (eu tenho pavor daqueles desktops com um monte de ícones espalhados por todos os lados). Quando alguém usa meu computador e eu percebo alterações nesse ecossistema frágil que é a relação entre minha paciência e a minha área de trabalho, quase tenho o piripaque do Chaves. Tenho certeza que cada um trata sua área de trabalho com carinho, coloca um wallpaper específico por algum motivo e quando o profile dá pau e a máquina tem que ser formatada, por exemplo, a sensação de perda é proporcional a morte do seu cachorro;

Profile do Orkut: no começo, quando o Orkut era uma ferramenta legal para reencontrar amigos antigos, colegas de escola e familiares distantes, era divertido entrar e participar das comunidades, que eram poucas, livres de miguxos e frequentadas por pouquissima gente, geralmente interessada em assuntos que rolavam nessas comunidades. Quando a inclusão social destruiu o Orkut e o site virou apenas um festival de horrores e uma ferramenta para namoradas desconfiadas pegarem os namorados mentirosos no flagra, criou-se o termo orkutcídio, ou algo que o valha, que era o ato de deletar o profile do Orkut. Mas conheço muita gente que não apaga o profile do Orkut porque acaba sempre dando uma olhadinha aqui, deixando um scrapzinho ali… E quem apaga acaba voltando uma semana depois e tendo um trabalho ridículo de adicionar todo mundo de novo e procurar as mesmas 287 comunidades que tinha antes apenas pra fazer número e pagar de cool. O mesmo vale para Fotologs, Flickrs, etc.;

Conta de E-mail: no começo, quando a gente é mais novo e cria um e-mail (pelo menos a maioria) não se preocupa na utilização daquela conta e nem na influência que o nome de usuário pode exercer em nosso futuro. Eu já dispensei diversos currículos de candidatos que nos contatos colocavam e-mails como rykohgatodemais@hotmail.com ou juninhohacker@gmail.com. O ideal é separar o pessoal do profissional, como já citei aqui antes. Mas o normal é que a cada novo serviço de e-mail que surge, as pessoas correm pra criar uma conta, sabe-se lá por quais motivos. E se pesquisarmos podemos notar que cada usuário de Internet tem 5 ou mais contas de e-mail. Agora pergunte quantas eles utilizam pra de fato, trocar e-mails? Provavelmente nenhuma. O que resta é provedores de e-mails com bancos de dados gigantescos de contas de e-mail fantasmas, que existem apenas pra tornar o Spam possível. Se você perguntar a algum deles “Por que você não apaga essa conta já que não usa?” é capaz de levar um chute na canela;

Outros exemplos que poderíamos citar de apego digital: o nick no Mirc, o número do ICQ (eu ainda sei o número e a senha do meu) e o personagem em algum jogo on-line, que acaba se estendendo aos artigos (armas, itens) portados pelo bonequinho.

E você, é apegado digitalmente a quê?

Veja também

<>

Comentários

Topo