A fé move montanhas. E mata monstros de fumaça preta.

Eis que, uma semana depois de todo mundo, assisti o tão comentado final de Lost. O fim de uma das séries mais intrigantes de todos os tempos. Lembro como se fosse hoje toda a expectativa em torno da escotilha, sobre os motivos que faziam uma pessoa digitar uma sequência de números durante anos. Vi ursos polares numa ilha tropical, bombas de hidrogênio, magnetismo, mas acima de tudo, vi fé naqueles personagens. Fé em encontrar uma nova vida nessa ilha, fé em ser resgatado, fé em ter um propósito de estar ali, naquele exato momento, fé em consertar tudo ao seu redor.

Há duas formas de analisar o final de Lost. Uma, é movida por essa fé. Focando-se nas pessoas, ignorando o fato de que algumas simplesmente sumiram, outras são espíritos/fantasmas, outras morreram gratuitamente, deixando transparecer uma aceitação fria e calculista da morte alheia por parte de quem foi sobrevivendo. É mais do que explícita toda a religiosidade envolvida no universo de Lost. O que me frustra um pouco, visto que todo os mistérios que nos fazem duvidar de uma série de coisas são substituídos por dogmas e clichês seculares, assim como aconteceu em Matrix. O sucesso foi maior do que o esperado e os responsáveis por algo que mudou a vida de muita gente não soube como dar continuidade, ou ao invés de deixar tudo como estava, tentou espremer suco de uma laranja que já não tinha sumo.

Considerando que a ilha realmente existe, que pessoas podem falar com mortos, que tudo o que existe nesse planeta é controlado por uma pessoa que bebe um copo d´água e uma fumacinha preta pode assumir formas humanas e vira de fato mortal depois que uma rolha é tirada de uma pedra, o final de cunho religioso, com o universo paralelo sendo uma espécie de limbo/purgatório onde todos já estavam mortos mas Sun pode levar um tiro e sangrar e pessoas podem morrer, mesmo estando já mortas, foi o final mais ‘digno’ e óbvio que a série poderia ter. Para os fãs de ficção, para os céticos, para os sedentos por causalidades, o final não poderia ser mais frustrante.

Foi usada a fórmula Spielberg para acabar com Lost. Muita ficção, ciência, mistério, mas tudo acaba num final feliz com todo mundo de mãos dadas. Os fãs de Lost que tratam a fé como placebo se frustraram pois queriam explicações racionais para acontecimentos diversos na ilha, como muitas vezes foi o caminho tomado pelos produtores. Essa é a segunda forma de entender o universo de Lost. Tudo o que era ciência e mistério virou uma papagaiada religiosa. Substituíram a causalidade pela casualidade. O monstro de fumaça não é feito de nanopartículas inteligentes (claramente o modelo usado para a fumacinha preta foi extraído de Presa, um livro de Michael Crichton, por sinal um dos autores favoritos de J. J. Abrahms), mas sim de… luz. É assim que as coisas funcionam na ilha, se você é jogado numa caverna cheia de luz, você sai lá de dentro como fumaça preta.

Os ‘furos’ no roteiro são muitos, mas enxergá-los depende muito mais de como VOCÊ é, do que qualquer outra coisa. O fato é que o final de Lost, por pior que tenha sido acaba nos fazendo aprender um pouco mais sobre nós mesmos. Alguns podem acabar descobrindo uma fé interior que não existia ou mesmo ter uma fé já existente reforçada pela religiosidade exibida no final da série. Já os que preferem acreditar que o mundo é físico, que as coisas podem ser sim explicadas e o que não é explicado, AINDA não o é por não termos o conhecimento necessário para tal empreitada se viram cada vez mais convictos de que a fé é capaz de mover montanhas, de matar monstros de fumaça preta e fazer com que todos vão para o céu, independente dos pecados que tenham cometido, mas não é capaz de dar um final decente a uma série de TV.

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